Críticas

Crítica | Todo Dia

A premissa todo mundo conhece: uma adolescente apaixonada pelo rapaz popular da escola, que não se importa com os sentimentos dela, mas, devido ao amor que sente, ela aceita manter a relação. Até que um dia algo acontece em sua vida e a faz perceber que não precisa mais viver esse namoro. Se pensar em todos os romances adolescentes que já assistiu tenho certeza que com essa breve sinopse lembrou ao menos de um título. Todo Dia, longa-metragem adaptado do livro de mesmo nome, possui em sua narrativa um elemento que tinha tudo para fazer diferença e não deixar o filme se tornar “só mais um romance” dentro os milhões já existentes. Porém, infelizmente, o roteiro não soube como se desenvolver e entrega um filme recheado de clichês.

Todo Dia é sobre a vida de Rhiannon (Angourie Rice), uma garota de 16 anos, que vive um relacionamento com Justin (Justice Smith), um garoto popular que não a valoriza, até que um dia – literalmente um – ele muda seu comportamento estúpido. Porém, no dia seguinte, Justin volta a ser como era antes. Mais tarde, Rhiannon descobre que este dia incrível só foi possível devido a uma alma misteriosa chamada A, que habita um corpo diferente a cada dia. Diariamente Rhiannon passa a conhecer várias versões de A, que experiência a vivência de um corpo somente durante 24h. A garota se apaixona por este ser, fazendo de tudo para encontra-lo a cada dia e, quanto mais tempo juntos, mais complicado se torna manter esta relação.

Todo Dia, distinto de outros romances juvenis, possui em seu argumento algo muito interessante. A ideia de se apaixonar e criar laços por uma alma e não por um corpo – independente inclusive de gênero sexual – é curiosa e gera certo atrativo. Mas, de nada adiante uma boa ideia se ela não é desenvolvida. Ao invés de se aprofundar na condição desse ser enigmático e na ideia de se apaixonar por algo além do visual, o roteiro opta por nos contar mais uma estória de amor impossível e ignora, por várias vezes, elementos que tornariam a experiência desse longa algo não visto. O filme até tenta, mas não consegue se aprofundar em nada. Os personagens ficam rasos, não passando de meros estereótipos já conhecidos – a irmã boca suja que serve de alívio cômico, a mãe estressada que só pensa em trabalho, o pai que é ignorado por todos da família e, é claro, o namorado idiota popular. Não bastando de uma narrativa que por si só rende muito assunto, o filme ainda tenta trazer à tona assuntos sérios como depressão e suicídio. Ao inserir estes temas na narrativa, também de forma superficial, o filme se perde mais ainda.

Além de atrapalhar na condução narrativa do filme, o roteiro não consegue se abster e faz da direção uma confusão também. Há sequências no filme que saem de um alívio cômico para um diálogo mais sério e profundo e não existe mudança no tom da direção. Tudo fica igual como se fosse um só grande bloco. Não existe alterações sensoriais, é tudo pasteurizado. São pouquíssimas as cenas que a direção faz diferença e ajuda a alavancar a narrativa do filme.

Por fim, Todo Dia se torna uma oportunidade perdida. São vários os assuntos que podiam ser abordados, porém, o filme decidiu seguir uma fórmula já padronizada, não arriscando sequer um pouco. Pelo menos, para o estúdio, ao tomar essa decisão pela narrativa padrão, é interessante, afinal é a certeza de que daqui um ano o longa será exibido em algum especial de fim de ano da Globo.

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